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Religiosidade Afro-Maranhense
Por: CCPDVF
Publicado em: 15/04/2006

É a denominação pela qual é conhecida a religião trazida pelos negros africanos de origem jeje, nagô e outras para o Maranhão, isto é, o toque que indica um ritual de chamada e louvação às entidades africanas (voduns e orixás) e caboclos de várias procedências. Os rituais são realizados em casas de culto chamadas de terreiros ou casas de mina, onde os iniciados recebem entidades em transe mediúnico em rituais acompanhados por instrumentos como tambores (abatás, tambores da mata), cabaças e agogôs. O tambor de mina é realizado nos terreiros principalmente nos dias em que a Igreja celebra as festas de seus santos. Há canto e dança dos filhos-de-santo com suas entidades, ao som de tambores acompanhados de cabaças (abês) e de ferro (gã ou agogô).

O Tambor de Mina surgiu com os negros Jêje-nagôs e vem sendo mantido por seus descendentes há mais de um século. Durante o ritual, os “encantados” se manifestam e entram em contato com os devotos. No mês de junho, observa-se a presença de grupos de bumba-meu-boi nos cultos do Tambor de Mina. Há, inclusive, relatos de entidades que dizem apreciar o São João, tais como Joãozinho da Légua, João da Mata, João Soeiro, João de Una, Preto Velho e Seu Surrupira.

Duas casas se constituem respectivamente nas mais antigas de São Luís: a Casa das Minas e a Casa de Nagô.

CASA DAS MINAS

A Casa das Minas, localizada na rua de São Pantaleão, é o terreiro de religião africana mais antigo de São Luís. Fundada no século XIX, é uma casa de culto aos voduns, entidades espirituais do antigo reino africano do Dahomé, atual República do Benin.

O pesquisador Pierre Verger defendeu a hipótese de que a Casa tenha sido fundada por Nã Agotimé, da família real de Abomey, esposa do rei Agonglô (1789-1797) e mãe do Rei Guezo (1818-1858), vendida como escrava por Adandozan (1797-1818) que ocupou o trono do Dahomé após o falecimento de Agonglô.

A memória oral da Casa das Minas, por sua vez, registra que a fundadora da Casa foi Maria Jesuína, africana consagrada ao vodum Zomadônu, o dono da Casa das Minas. Dentre os voduns cultuados na Casa, figuram, além da família real de Davice, à qual pertence Zomadônu, muitos voduns de outras famílias: Dambirá, Quevioçô, Aladanu e Savalunu, hospedadas na casa por Zomadônu.

Chefiada por mulheres, a Casa das Minas, desde a sua fundação, foi comandada por seis vodunsis, dentre as quais ficou muito conhecida Mãe Andresa, que chefiou a Casa por 40 anos. Atualmente, a Casa das Minas está sob o comando de Dona Denil Prata Jardim, consagrada a Lepon, vodum da família de Dambirá.

Em São Luís, a Casa das Minas é muito visitada, principalmente, por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo, realizada para nochê Sepazim, princesa da família real de Abomey, que é devota do Divino Espírito Santo.

A Casa das Minas, apesar de se apresentar como o único terreiro Mina-jeje, exerceu grande influência nos terreiros de Mina de outras “nações”, inclusive na Casa de Nagô, também fundada por africanas, que, segundo a história oral, foi aberta com a colaboração da fundadora da Casa das Minas. Hoje, além de termos como “vodum” e “guma” serem amplamente utilizados nos terreiros de São Luís, alguns voduns assentados na Casa das Minas são amplamente cultuados no Maranhão, entre os quais: Badé Quevioçô, Averequête, Acóssi-Sakpatá e Ewá, o que mostra a grande importância da Casa das Minas na cultura maranhense.

CASA DE NAGÔ

A Casa de Nagô, também fundada por descendentes de africanos, deu origem a outros terreiros de São Luís, em que são recebidas entidades africanas e caboclas de origem européia ou nativa. Segundo relatos, foi fundada à época de D. Pedro por "malungos" africanos "de Nação", ajudados pela fundadora da Casa das Minas. Localizada na Rua Cândido Ribeiro, a Casa de Nagô influenciou os demais terreiros de São Luís. Há um calendário tradicional da Casa que mantém festas nos meses de janeiro, fevereiro, na Quarta-feira de Cinzas, em abril, maio, junho, julho, agosto, outubro e dezembro.

Outros dois terreiros antigos merecem ser lembrados: o Terreiro do Egito (já extinto), o Terreiro da Turquia (este ainda mantido por pai Euclides da Casa Fanti-Ashanti).

O terreiro do Egito originou vários terreiros, com destaque para a Casa Fanti-Ashanti, de Euclides Ferreira; Casa de Iemanjá, de Jorge de Itaci; e Terreiro Fé em Deus, de mãe Elzita, filha-de-santo de Denira, (já falecida).

CASA FANTI ASHANTI

A Casa Fanti-Ashanti foi fundada em 1954. Os Fanti e os Ashanti eram povos da antiga Costa do Ouro, na África, atual República de Gana. Em São Luís, a Casa de Fanti-Ashanti fica localizada no bairro do Cruzeiro do Anil. É uma Casa de Mina e Candomblé que mantém a tradição desde sua fundação. Além dos rituais do Tambor de Mina, do Candomblé e das festas de Ogum, Oxossi, Obaluaiê, Oxum, Oxalá, Nanã, Oxumaré, Xangô, Oxumaré e Oyá, a Casa também realiza o “Samba de Angola” para os boiadeiros. Há também rituais ligados à pajelança, ao catolicismo popular (Espírito Santo) e ao folclore (como o boi de Corre Beirada e o Tambor de Taboca).

O terreiro é comandado por Tabajara, coadjuvado pelos encantados Juracema e Jaguarema que estão presentes em todas as atividades, exceto nos rituais de Candomblé, onde a entidade maior é Oxaguiam, dono da cabeça de pai Euclides, chefe do terreiro, que herdou seus conhecimentos religiosos de um antigo Tambor de Mina de São Luís - o Terreiro do Egito - que funcionou até o final da década de 70. Euclides Menezes Ferreira é pioneiro em São Luís na prática do Candomblé.

TERREIRO DE MINA IEMANJÁ

O Ylê Ashé Yemowa, ou terreiro de Mina Iemanjá, foi fundado por pai Jorge de Itaci em 1956. Segundo o babalorixá, o terreiro localizado no bairro da Fé em Deus possui calendário vasto dedicado às nações Jeje e Nagô. A casa é comandada por Xangô, representado por Dom Luís, rei de França; Iemanjá e por Légua Boji Buá da Trindade, este na linha de caboclo. Realiza, no dia 13 de maio, um ritual e um tambor de crioula para preto-velho e, no dia 13 de dezembro, um toque onde se rende homenagem à linha de boto, hoje quase desaparecida dos terreiros de mina.

TERREIRO DA FÉ EM DEUS

O Terreiro da Fé em Deus, de Elzita Vieira, situado no bairro do Sacavém, em São Luís e fundado em 1967, realiza vários festejos ligados à Mina Nagô, à cura (pajelança) e ao catolicismo popular (Festa do Espírito Santo e outras). Um dos mais destacados da capital tem como guia Caboclo Velho, também chamado Índio Velho e Índio Guerreiro, e como chefe a entidade conhecida por Surrupirinha.

É importante frisar que em São Luís há uma diversidade de terreiros, até hoje não totalmente catalogados, mas muitas casas funcionam precariamente por dificuldades financeiras e/ou por morte do fundador ou mantenedor. Esses não são os únicos terreiros maranhenses; acredita-se que existem mais de 200 terreiros espalhados na capital definindo-se como Mina, Umbanda ou Mata. Em Codó, a "Meca" do Terecô, os terreiros são também numerosos, sendo mais conhecido a "Tenda Espírita de Umbanda Rainha de Iemanjá", de Bita do Barão.

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